31 de março de 2009

Correr (2)

(...)

Então, uma vez vi aquela meninamulher. Devia ter seus 19 anos. Andava melancolicamente cabisbaixa e levava na colera um Yorkshire Terrier – lembrava muito o meu. - Vinha de frente pra mim, no sentido contrário do calçadão reto de corrida. Tive tempo suficiente de olhar pra ela sem que ela percebesse. Imaginei milhares de motivos para ela estar ali, assim.

No meio de tanta gente estranha. Ela, estranha e linda. Alguma coisa incomodava. Algo que não tinha como eu saber o quê, algo que me intrigava e tornava-a mais linda. Sabe aquela pessoa que dá vontade de parar, sentar e bater um papo sobre a vida? Assim mesmo, inexplicável, uma intimidade que não existia. Nisso, em contraste com a alegria do cachorro, ela seguia sua introspecção.

Quantas vezes eu andava por aí assim! Corria nos meus problemas curtos enquanto o mundo voava na sua realidade. Eu era o ser e o nada. Uma busca constante pela essência que me abandonava. Mas e aí? Eu só queria mais uma vez correr. Como aquela coisa feita mal pensada. Aquele desejo latente impedido pela consciência. Não existia sentido, era só vontade. Sentimento, só correr.

Ela passou por mim, cruzou no sentido oposto e nada mais. O sol laranja-avermelhado daquele horário, vindo quase que horizontalmente me lembrou de respirar. Voltei, mais uma vez de um mundo que não era meu.