
Menino gordinho. Brincou, sonhou, chorou, dormiu e brincou de novo. Em toda a sua até então breve vida, desde que começou a andar e sentir suas vontades, gostou de pássaros. De todo tipo lhe convinha, até por que de tipos ele nada entendia. Seu sonho sempre fora pegar em um.
Admirava os homens mais velhos, aquelas barbas brancas e sabedoria latente. Um dia se viu encantado por um senhor de pássaro vistoso e altivo no ombro. Ele, o senhor, pouco caso fazia do pássaro. Quanto menos atenção dava mais o pássaro se sentia à vontade e rodopiava no cômodo de seu ombro.
Desde então, Pedrinho passou a ir ao quintal e lá esperar. Olhava os pássaros com o canto dos olhos com se nada quisesse. Quando um ali pousava ele dava de ombros e voltava as costas aflito na espera de alguma aproximação da criaturinha. Nunca deu certo. Nunca chegavam perto o suficiente.
Tentou de tudo. Armadilhas ele não conseguia fazer, era muito novo, e isso só aumentava a admiração pelos mais velhos. Correr de nada adiantava, os pássaros eram sempre mais rápidos. Tentava em vão disparar atrás de um ou outro esperançoso, mas força também lhe faltava.
Uma vez no quintal, brincando com aquelas bolas grandes, leves e coloridas de parque, viu vários pássaros desses pequenos pousarem juntos ao gramado próximo. Ele estacou com a bola nas mãos. Segundos depois fez a primeira coisa que veio na cabeça: arremeçou.
Todos eles partiram em disparada assustados. A bola bateu de forma estranha naquele nuvem de asinhas e caiu ao chão. Junto dela um passarinho. Ele não acreditou. Seu sonho, em fim pegaria em um. Já se sentia mais confiante, mais velho, mais experiente e vivido. Tudo isso em frações de segundos. Não tinha tempo a perder.
O pássaro já pulava de um lado pro outro prestes a voar. Então, correu o mais rápido que pôde nos limites da sua felicidade. A criaturinha continuava pulando e pulando. Bem viva, apenas um pouco desnorteada para seguir seu caminho. Ele, eufórico, seguia desgovernado em direção.
Quando perto o suficiente, ao se jogar no chão com as mãos postas, percebeu que o pássaro não voaria naquele momento, apesar das tentativas. Ele de fato o pegaria. E isso o assustou completamente. Saber disso criou toda a perplexidade. Não contava com a reação. Sonhava e apenas sonhava. Como seria? Chegou a centímetros. Olhou, desviou os olhos e olhou de novo. Limpou o suor do rosto. Expressão preocupada e confusa... Decidiu.
Com calma, apoiou as mãos na grama, levantou-se lentamente e foi em direção a casa brincar de outra coisa. Pássaros já não lhe interessavam mais.