22 de abril de 2012

Não queria externar isso assim, não pra mim. Porque torna tudo uma possibilidade do real e dele já provei bastante do gosto que não veio. É o não de não querer assumir os momentos em que meus olhos se perdem. Daqueles em que de tudo se esquece. Desses que envolto em curiosidade ímpar te olho e só vejo a síncope do mundo.


8 de abril de 2012

Simples

Um desejo irrevogável pela rotina e resignadamente pelo simples. É uma vontade de ter amor. Ser amor. E só. E simples. De largar, de correr, de buscar, de deixar. Mudar essa diferença que me faz desigual. Ou tão igual. Me resignar pelo modesto, pelo comum e ser feliz. Uma vontade de acordar simples, trabalhar simples, com aqueles mesmo simples horários cotidianamente reclamados e acusados insossos. Mas deles, duma pura organização modesta diária, faria cada válvula de espape  necessária ao que me faltasse. Ler simples, crescer simples, ser simples. E a única pretensão que afogaria o meu dia seria o aguardo daquele abraço no fim, perdido num presente simples sem a mágoa do passado nem ansiedade do futuro. Essa mania de querer ser grande é o que nos torna a todos pequenos. É o que não te deixa ser. Simples.

20 de fevereiro de 2012

Correio

Um ano. Te conhecer foi algo como o fogo.  A velocidade, a intensidade e o calor. Principalmente o calor, que me queimou e marcou a ponto de acreditar. E depois de escrever em cinza, foi embora com o frio de lembrança. Me permitir. As consequências o faz agora impossível. De não ver razão, de não ver vontade, de não ver porquê. Me sabotar antes mesmo de tentar, antes mesmo de querer. Mas, no mais, não é rancor que aqui coloco por de trás dessas palavras confusas. Pelo contrário, disso só me vem boas lembranças, recordações de fogo. E, pela data, foi algo a que lembrar. E, como feito à época, escrever.


Pedro, fechou a carta e num último pensar, lacrou. enviou. esqueceu.
9 de outubro de um ano qualquer.

26 de janeiro de 2012

Palavra por palavra

Quando se tem muito ódio fluindo do seu coração aos planos da tua cabeça, o melhor é parar, pegar um livro, ler.

É uma forma sucinta e limpa de matar aqueles que te incomodam profundamente . 

Um por um. 
Linha por linha. 
Dentro de você.

18 de janeiro de 2012

Seu Genário

Seu Gerário, 62 anos de muita vida. Cabelo grisalho e pele marcada ao sol. Começou como quem nada queria, como quem um dia já teve algo a perder, um dia. Viúvo de família, viúvo da vida. Essa lhe mostrou cedo o que é o amor mas também os pesares que esse o trás. E, como dito há pouco, começou. Palavra forte essa. Começar. A descobriu com o passar dos invernos, com o passar do passar. Mas essa cá é lá outra história. Começou. Despojado de sua base machista daqueles seus anos 50 de que homem que é homem não dança, se pôs a dançar.

Depois dos esportes ditos não adequados a idade, de onde tirava toda endorfina necessária ao sustento da vida de pesares, os pequenos passos ritmados se fizeram em sentido. Pouco a pouco. Breve, já não se fazia sem as noites tradicionalmente seguidas a dança. Sentia os passos bem colocados e aquele suor de algo belo. Era o esforço que na música se esvaía. Aquele giro que no chão se equilibrava. Um peão na sua rota circular no sustento de uma personalidade. Personalidade. E, com seus 62 anos, viu que sem ela não se dança. Ou se dança mas não toca. É muito mais que dois corpos se alimentando em movimentos frenéticos ou giros encaixadinhos. São duas vidas se equilibrando em medos, convicção e vontade. Duas almas inseguras que se acham, feitas em sensualidade.

Ah, o forró. Deu a seu Genário olhos no corpo que não os tinha. Aprendeu a ver na transparência daquelas peles tímidas. Mudou sua aposentadoria e tornou o dois pra lá mais próximos dois pra cá. –Você menino, já não é mais o mesmo depois de umas tantas sanfonas sentidas e uma zabumba no peito - como gosta sempre de lembrar. Ele, pelo menos, nunca mais o foi.

Arrepia o corpo da gente
Faz o véio ficar moço
E o coração de repente
Bota o sangue em arvoroço.