5 de outubro de 2013

Na minha introspecção diária de biblioteca existe uma garota. Não me atrai fisicamente e tampouco um dia cheguei a trocar poucas palavras com ela. Sentamos sempre ali, na mesma zona de mesas perto das janelas. E ela lê. Ela lê muito. Literatura brasileira, russa, inglesa. Um livro alternadamente a outro enquanto eu me perco e me encontro nos cálculos. Enquanto concurseiros folheiam seus vade mecum, enquanto uma pessoa dorme na mesa da esquerda. Cada vez que olho curioso pra ela me vem a capa do meu Murakami que dorme fechado no escuro da minha bolsa. Ela lê. Ela sublinha. Marca e escreve. Repetidas vezes. Me lembra a vontade de largar aquelas integrais, abrir meu livro e passar a tarde assim, absorto na completude introspectiva que só um livro consegue me inserir. Não sei se invejo ela. Claramente faz isso por algum curso ou trabalho, mestrado talvez, algumas incontáveis resenhas de um curso de letras.  Ela sempre parece fazer de bom grado e escolha. Daquelas pessoas que quando leem fazem com que outras ao redor tenham a mesma vontade de passar umas interessantes páginas imerso naquela boa postura. Gosto. E talvez gosto por ter minha liberdade. Leio quando quero e quando posso, termino em dois dias ou dois meses, como queira. Sempre tenho a sensação que gostaria de ler muito mais do que tenho lido. Mas, se os paradigmas de um curso tornasse isso compulsório não acredito que teria a mesma vontade. E amanhã novamente ela estará ali, com seu Dostoiévski e seu Machado de Assis enquanto eu calculo os esforços resultantes numa estrutura estática. Enquanto eu calculo o tempo que terei pra mergulhar, da mesma forma, numas poucas páginas antes de dormir.