20 de dezembro de 2010

O amor é importante, porra.


O amor é importante, porra.

Brasília - Águas Claras.
01h10


li.
pichado no branco. simples assim. único.
um grito desesperado para algo que constantemente

esquecemos.
esqueço.
esqueci.

27 de novembro de 2010

Tattoo

Olá,

queria fazer uma tatuagem. Agora. Uma tattoo na alma. Que marcasse e definisse como algo que nunca saberei se sou. Ultrapassasse a barreira da catarse diária e completasse a compleição do vazio que me toma.

quanto fica?

30 de setembro de 2010


O infinito deve se estender nas minhas percepções de limite por todos os ângulos temporais existentes. Não como algo longínquo que sem foco eu não posso ver. Mas como um sem espaço de possibilidades onde possa ser feito o que eu bem quiser e quiçá entender.

Ziul tinha o relógio em uma das mãos e as escolhas na outra.

Tendeu o tempo ao infinito e das escolhas, cortou todas. Fez da vida o ato. Escolher por querer, fazer acontecer na vontade. Precisou daquela semana pra entender que nossos limites são muito maiores do que pensamos.

No mais, só mais uma noite daquelas em que foi dormir revolucionário, sonhou antes mesmo de deitar. E acordou mais um.

-Ah se a catarse de uma noite durasse uma vida.
Foi o que lhe veio logo quando acordou e levantou indiferente a um novo dia.




-Então advinhei, Sônia - continuou com entusiasmo -,
que o poder apenas se entrega a quem se atreve a se inclinar e apanha-lo.
Raskólnikov

13 de junho de 2010

Pedrinho


Menino gordinho. Brincou, sonhou, chorou, dormiu e brincou de novo. Em toda a sua até então breve vida, desde que começou a andar e sentir suas vontades, gostou de pássaros. De todo tipo lhe convinha, até por que de tipos ele nada entendia. Seu sonho sempre fora pegar em um.

Admirava os homens mais velhos, aquelas barbas brancas e sabedoria latente. Um dia se viu encantado por um senhor de pássaro vistoso e altivo no ombro. Ele, o senhor, pouco caso fazia do pássaro. Quanto menos atenção dava mais o pássaro se sentia à vontade e rodopiava no cômodo de seu ombro.

Desde então, Pedrinho passou a ir ao quintal e lá esperar. Olhava os pássaros com o canto dos olhos com se nada quisesse. Quando um ali pousava ele dava de ombros e voltava as costas aflito na espera de alguma aproximação da criaturinha. Nunca deu certo. Nunca chegavam perto o suficiente.

Tentou de tudo. Armadilhas ele não conseguia fazer, era muito novo, e isso só aumentava a admiração pelos mais velhos. Correr de nada adiantava, os pássaros eram sempre mais rápidos. Tentava em vão disparar atrás de um ou outro esperançoso, mas força também lhe faltava.

Uma vez no quintal, brincando com aquelas bolas grandes, leves e coloridas de parque, viu vários pássaros desses pequenos pousarem juntos ao gramado próximo. Ele estacou com a bola nas mãos. Segundos depois fez a primeira coisa que veio na cabeça: arremeçou.

Todos eles partiram em disparada assustados. A bola bateu de forma estranha naquele nuvem de asinhas e caiu ao chão. Junto dela um passarinho. Ele não acreditou. Seu sonho, em fim pegaria em um. Já se sentia mais confiante, mais velho, mais experiente e vivido. Tudo isso em frações de segundos. Não tinha tempo a perder.

O pássaro já pulava de um lado pro outro prestes a voar. Então, correu o mais rápido que pôde nos limites da sua felicidade. A criaturinha continuava pulando e pulando. Bem viva, apenas um pouco desnorteada para seguir seu caminho. Ele, eufórico, seguia desgovernado em direção.

Quando perto o suficiente, ao se jogar no chão com as mãos postas, percebeu que o pássaro não voaria naquele momento, apesar das tentativas. Ele de fato o pegaria. E isso o assustou completamente. Saber disso criou toda a perplexidade. Não contava com a reação. Sonhava e apenas sonhava. Como seria? Chegou a centímetros. Olhou, desviou os olhos e olhou de novo. Limpou o suor do rosto. Expressão preocupada e confusa... Decidiu.

Com calma, apoiou as mãos na grama, levantou-se lentamente e foi em direção a casa brincar de outra coisa. Pássaros já não lhe interessavam mais.

23 de abril de 2010

Sobre Inerência. Ou maldade?


Sobre Inerência. Ou maldade?


[...] Continuando...

As crianças, as então páginas em branco na qual uma sociedade qualquer escreve seu texto, são as mais instintivas e interessantes a meu ver sobre toda essa observação. Me perco lembrando quantas vezes parei para observar o sorriso de uma, a tristeza de outra, os gestos que só elas fazem e que as vezes só uma mãe incansavelmente atenta percebe.

Elas ainda intatas ou muito pouco envolvidas com os podes e não podes da nossa vida são transparentíssimas quanto às emoções. Não que eu ache pessoas assim interessantes, longíssimo disso. Mas elas, as crianças têm nisso um ponto singular. Já vi casos em que pequeninos de dois a três anos batem no irmão recém nascido, ainda no colo da mãe, por ciúmes. Diferentes tipos de família. A expressão de raiva no rosto deles, quando não só de manha é assustadora. Mostra onde nós conseguimos chegar já tão cedo na vida.

É o modo de falarmos mesmo sem querer ou conseguir.

Entretanto... Uma vez estive em um orfanato, desses em que as crianças são jogadas a própria sorte pra enfrentar o futuro com armas que elas nem tem. Apesar de tudo o sorriso no rosto é sempre presente, são naturalmente felizes e contagiam fácil. Elas sabem o lugar que moram e o que acontece, mas criança é criança. [...] Num lugar desses a competição é presente em qualquer hora do dia. As brincadeiras viram fácil briga a todo momento. Uma bobas e normais, mas outras que expressão o medo e a vontade de matar nos olhos delas, tão novas. – Não, não é exagero.

Chegou momentos que não tinha o que se fazer, mesmo. Pequena, indo com uma faca em direção a outra e mais tarde com uma pedra na mão. Não é falta de preparação do lugar. Tá, talvez seja um pouco. Mas sei que existem lugares piores que esse e que as pessoas, e ainda, as crianças não recebem ajuda nem orientação alguma. Vale mais do que tudo notar a iniciativa de quem montou tal estabelecimento. A ajuda é importante.

Coisas assim acontecem em qualquer situação financeira. Não importa se é na comunidade organizacional da favela tal ou numa escola integral de uniformes listrados de um país qualquer. As vezes só mais sutis e com outro foco, mas acontecem, são todas iguais. A competição é o meio natural de respirar.

A bondade do proprietário é o que impulsiona e incentiva a melhora do lugar por terceiros. É a disposição de uma pessoa em fazer o bem. É a tal gentileza gera gentileza do Profeta Datrino. Se isso é a bondade estamos cercados de trabalhos voluntários e ONGs com objetivos lindíssimos para com a sociedade. Mas cada pessoa que nisso trabalha tem sua vida. Ganha seu pão e está envolta em toda sua atividade de viver. E nisso todas sempre pecam. É a tal inerência, é natural competir, querer ganhar.

Contudo, ainda com todo o relevado, tento acreditar na bondade não como uma certeza mas talvez como esperança. É a ação que nos torna melhores. E ao nos tornarmos melhores como tais aos poucos mudamos no íntimo e o que talvez possa não ser lá tão inerente assim. Talvez ainda possamos ser bons, um dia. Você acredita?

19 de abril de 2010

Sobre Inerência. Ou maldade?

Sobre Inerência. Ou maldade?

Inerente, adj. Do latim inhaerens.
Que é atribuído ou propriedade de algo ou alguém; Que faz parte de alguma coisa; Intimamente unido.


Que nós temos todo um caráter moldado com o tempo é tácito. Resultados de um meio e das escolhas dentro deste. Mas acredito ainda que em tudo existe uma certa inerência em ser. E nesse ponto não só como uma interpretação do que é bem ou mal, mas sim do que é instintivo e natural.

Freqüentemente me pergunto sobre o que é instintivo para um ser humano, o que é inerente a nossa raça. Seria a bondade ou a maldade, aquela que aflora da nossa consciência primeiro?

Certa vez na faculdade eu tive um breve contato com uma matéria que muitas vezes foi motivo de estranhamento ou piadinhas na sala. A antropologia gritava seus conceitos para mim naquelas aulas enquanto eu, meninodeapartamento, tentava entender por que um cara entrou num ônibus 174 e virou filme/manchete nacional pela sua história. A professora, outrora aluna de Laraia, empurrou um Cultura: Um conceito antropológico. Empurrou, até por que naquela época eu não leria um livro de sociais assim por livre vontade.

Não fui muito a fundo em toda aquela também teoria de Durkheim e de outros nomes nas aulas. No entanto, com elas, as perguntas do dia a dia ganhavam um sentido novo.

A bondade ou a maldade? Descarto os casos assumidos, patológicos ou maiores dentro da escala social. Aqueles que levam uma pessoa e depois um grupo ao terrorismo, preconceitos, assaltar ou matar por tão pouco. Mas vejo ainda que os detalhes que aqui falo são a base para esses maiores. Detalhes esses, pequenas situações que dão continuidade ao nosso dia a dia.

Não, não se faça de bom moço, caracterizo como maldade as pequenas coisas, qualquer pequeno ato ou escolha de competição, que visa um alcance ou relação pessoal, social ou profissional. É complicado definir algo do tipo, assim fora de qualquer convenção. Cada cultura tem seu bem e mal, seu céu e inferno. Mas nos detalhes, aqueles humanos, somos iguais.

Fato social, relativismo cultural, todas essas teorias ensinam como analisar antropologicamente ou sociologicamente um indivíduo. A forma de olhar cada um imerso na sociedade que te envolve e influencia. Mas aqui eu quero algo mais intrínseco, mais íntimo. Onde não importa quão financeiramente diferente é a pessoa. Pergunto aqui sobre algo que é inerente a qualquer um. Anos estudados, línguas faladas ou países que visitou, no íntimo, é só um eufemismo que embeleza o que todos de fato são.

Por hora, acredito fielmente que somos maus. Naturalmente maus. Todas as intriguinhas, bullying, os comentários injustificados, os olhares dados - aqueles que nem no âmago da consciência justificamos o valor negativo. Titulações comuns: inveja, raiva e todos os outros tão falados pecados capitais. Ações e sentimentos que na igreja fazem toda crença virar uma esperança e não mais uma certeza.

E nas situações mais difíceis o instinto aparece e não existem palavras de bondade que sobrepõem a necessidade de uma fome ou o risco da morte. Ensaio sobre a cegueira do Saramago é um ensaio sociológico (devida licença aos sociais) curiosíssimo sobre isso.



Tive que dividir em dois pelo tamanho, queria falar tanta coisa sobre isso, mas não rola.

2 de abril de 2010

Aquele Ano Novo (2)

(...)

A conversa não seguia rumo algum. Casa animada, música de fundo e vozes no andar de baixo. Duas amigas se abraçavam como se matassem uma saudade de anos ausentes. Jane olhou pras duas e sorriu inocente com o canto da boca, olhou pra mim e assim ficou. Sorri também meio sem jeito... Foi ai que aconteceu.


O som desapareceu aos poucos. As vozes, as pessoas... Minha visão periférica era um borrão. Como quando numa máquina fotográfica colocamos o foco em macro, fechado em algo e o resto ao redor é só resto. Olhava-a por cima. Ela imóvel, com toda aquela vida nos olhos. O sorriso se dissipou lento até um ar preocupado, sôfrego. Não, não teria força naquele instante que desviasse nossos olhos, não existia mais razão. As pessoas ao redor perderam sentido. O que eu era agora se resumia a distância que estava dela, e só.

Não me lembro de ter descido o rosto. Em um segundo Jane estava tensa, eu também. A respiração quente, urgente, era o que separava milímetros. Em volta, senti o ambiente parado. As pessoas, a expectativa e a iminência. Era aquele silêncio aflito, aquele último ar antes do...
~
Horas se passaram. Eu olhava pra ela, ela pra mim. Os dois deitados sobre o tapete da sala. Todo mundo continuava numa conversa sonolenta de cinco horas da manhã. Não notavam nas duas figuras que se entreolhavam ali no meio. Naquele instante ficaria o resto da vida assim, sentindo a respiração dela bater em intervalos na minha boca.

É um estado em que duas pessoas se aceitam em um nível nunca entendido. Não era nada sexual, não era físico. A presença nos olhos ali já bastava, uma comunicação que existia sem existir. Uma compleição dos corpos que de dois agora eram um. Era o conforto, o quente que eu sentia por estar perto e o frio que eu provaria logo depois pela sua distancia.

  • Um pouco sobre Eros

27 de março de 2010

Aquele Ano Novo (1)


-Mais um dos antigos. Tinha me banido de colocar esse texto aqui mas vamos lá.
Aquele Ano Novo (1)
Pedro Eros.
Pedro não via lá muito significado em datas festivas como o Natal e o Ano Novo. Para muitos uma nova vida, novas realizações e fogos de artifícios de um novo amanhã. Para ele, apenas um passar de dias diferente. Dispensava o branco da paz, o pulo das sete ondas e o pedido aos céus. Gostava mesmo da reunião familiar alegre e de sempre, sempre muita comida. Isso era tudo, zerava o calendário.

Não costumava ir a festas e afins que aconteciam na virada do ano, preferia ficar em casa. Família e amigos, tudo aquilo de tradicional e reconfortante. Todas as piadinhas seguidas anos a risca. Quando dava encontrava o pessoal depois da meianoite. E foi assim naquele dia, uns amigos uma festa.

Morava em um setor de casas isolado da cidade. Não era longe, levava alguns poucos minutos de carro. Minutos esses que dizia sagrados. Era bom pra esquecer, curtir, relembrar qualquer coisa que tivesse acontecido. Pensar nos cotidianos da vida. Tudo ao som de uma boa música e a paz que criara daquele lugar. Naquele dia, no caminho, sem duvidas teve alguém a mais em quem pensar.

Ano novo! Devia ser umas três ou quatro horas. Todo mundo junto numa conversa distraída, roupas brancas e o primeiro dia do ano.

Jane M deitada sobre suas pernas cruzadas, tinha um olhar distante, tranqüilo... Quando falavam se entreolhavam de cabeça pra baixo. Pedro não conseguia, sempre deixava escapar uma olhada a mais. Não podia demorar um pouco nos olhos dela que tudo ficava lento, estranho, perfeito. Aquele brilho a mais, novo, naquele dia único. Aqueles olhos eram o conforto da noite. O conforto de um ano que terminara difícil, de um outro que começara bem.

A conversa não seguia rumo algum. Casa animada, música de fundo e vozes no andar de baixo. Duas amigas se abraçavam como se matassem uma saudade de anos ausentes. Jane olhou pras duas e sorriu inocente com o canto da boca, olhou pra mim e assim ficou. Sorri também meio sem jeito... Foi ai que aconteceu.

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