2 de abril de 2010

Aquele Ano Novo (2)

(...)

A conversa não seguia rumo algum. Casa animada, música de fundo e vozes no andar de baixo. Duas amigas se abraçavam como se matassem uma saudade de anos ausentes. Jane olhou pras duas e sorriu inocente com o canto da boca, olhou pra mim e assim ficou. Sorri também meio sem jeito... Foi ai que aconteceu.


O som desapareceu aos poucos. As vozes, as pessoas... Minha visão periférica era um borrão. Como quando numa máquina fotográfica colocamos o foco em macro, fechado em algo e o resto ao redor é só resto. Olhava-a por cima. Ela imóvel, com toda aquela vida nos olhos. O sorriso se dissipou lento até um ar preocupado, sôfrego. Não, não teria força naquele instante que desviasse nossos olhos, não existia mais razão. As pessoas ao redor perderam sentido. O que eu era agora se resumia a distância que estava dela, e só.

Não me lembro de ter descido o rosto. Em um segundo Jane estava tensa, eu também. A respiração quente, urgente, era o que separava milímetros. Em volta, senti o ambiente parado. As pessoas, a expectativa e a iminência. Era aquele silêncio aflito, aquele último ar antes do...
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Horas se passaram. Eu olhava pra ela, ela pra mim. Os dois deitados sobre o tapete da sala. Todo mundo continuava numa conversa sonolenta de cinco horas da manhã. Não notavam nas duas figuras que se entreolhavam ali no meio. Naquele instante ficaria o resto da vida assim, sentindo a respiração dela bater em intervalos na minha boca.

É um estado em que duas pessoas se aceitam em um nível nunca entendido. Não era nada sexual, não era físico. A presença nos olhos ali já bastava, uma comunicação que existia sem existir. Uma compleição dos corpos que de dois agora eram um. Era o conforto, o quente que eu sentia por estar perto e o frio que eu provaria logo depois pela sua distancia.

  • Um pouco sobre Eros