
As crianças, as então páginas em branco na qual uma sociedade qualquer escreve seu texto, são as mais instintivas e interessantes a meu ver sobre toda essa observação. Me perco lembrando quantas vezes parei para observar o sorriso de uma, a tristeza de outra, os gestos que só elas fazem e que as vezes só uma mãe incansavelmente atenta percebe.
Elas ainda intatas ou muito pouco envolvidas com os podes e não podes da nossa vida são transparentíssimas quanto às emoções. Não que eu ache pessoas assim interessantes, longíssimo disso. Mas elas, as crianças têm nisso um ponto singular. Já vi casos em que pequeninos de dois a três anos batem no irmão recém nascido, ainda no colo da mãe, por ciúmes. Diferentes tipos de família. A expressão de raiva no rosto deles, quando não só de manha é assustadora. Mostra onde nós conseguimos chegar já tão cedo na vida.
É o modo de falarmos mesmo sem querer ou conseguir.
Entretanto... Uma vez estive em um orfanato, desses em que as crianças são jogadas a própria sorte pra enfrentar o futuro com armas que elas nem tem. Apesar de tudo o sorriso no rosto é sempre presente, são naturalmente felizes e contagiam fácil. Elas sabem o lugar que moram e o que acontece, mas criança é criança. [...] Num lugar desses a competição é presente em qualquer hora do dia. As brincadeiras viram fácil briga a todo momento. Uma bobas e normais, mas outras que expressão o medo e a vontade de matar nos olhos delas, tão novas. – Não, não é exagero.
Chegou momentos que não tinha o que se fazer, mesmo. Pequena, indo com uma faca em direção a outra e mais tarde com uma pedra na mão. Não é falta de preparação do lugar. Tá, talvez seja um pouco. Mas sei que existem lugares piores que esse e que as pessoas, e ainda, as crianças não recebem ajuda nem orientação alguma. Vale mais do que tudo notar a iniciativa de quem montou tal estabelecimento. A ajuda é importante.
Coisas assim acontecem em qualquer situação financeira. Não importa se é na comunidade organizacional da favela tal ou numa escola integral de uniformes listrados de um país qualquer. As vezes só mais sutis e com outro foco, mas acontecem, são todas iguais. A competição é o meio natural de respirar.
A bondade do proprietário é o que impulsiona e incentiva a melhora do lugar por terceiros. É a disposição de uma pessoa em fazer o bem. É a tal gentileza gera gentileza do Profeta Datrino. Se isso é a bondade estamos cercados de trabalhos voluntários e ONGs com objetivos lindíssimos para com a sociedade. Mas cada pessoa que nisso trabalha tem sua vida. Ganha seu pão e está envolta em toda sua atividade de viver. E nisso todas sempre pecam. É a tal inerência, é natural competir, querer ganhar.
Contudo, ainda com todo o relevado, tento acreditar na bondade não como uma certeza mas talvez como esperança. É a ação que nos torna melhores. E ao nos tornarmos melhores como tais aos poucos mudamos no íntimo e o que talvez possa não ser lá tão inerente assim. Talvez ainda possamos ser bons, um dia. Você acredita?
