Os personagens e as situações desta obra são reais apenas no universo da ficção; não se referem a pessoas e fatos concretos, e sobre eles não emitem opinião. Ciadasletras
31 de outubro de 2011
Lido - Misto Quente - Bukowski
A cada página virada me perguntava onde o livro queria me levar. A cada novo palavrão, expressão e situação baixa, já esperados quando decidido ler Bukowski, ansiava um sentido, um porquê final. Ou, no mínimo, uma mudança. Mas, já adianto, ela não chega. Quando Henry, ou Hank, depois disso, dá meia-volta e sai caminhando, fechei o livro de má vontade e o joguei de lado xingando o motivo de ter lido aquilo.
Motivo esse que eu só fui entender com o passar do dia, interpretando minha agonia de, quando lendo, acabar logo o livro que só falava do lixo e do descaso. Concluindo um pouco na agonia em que levamos o dia a dia. De fato, semelhanças me faltam com o menino Chinaski. Situações, família, miséria. Ele não só vivia na crise como a era em toda a sua compleição. Mas, ali, nos detalhes encontrei aos poucos o que procurava. Toda a agonia da passividade perante à vida e às escolhas ignoradas me gritou em como podemos ser mesquinhos e medíocres com a nossa própria existência. De como viramos a cara para o que queremos e para o que somos só porque por hora é mais fácil.
Acredito que aqui não entro na questão do determinismo, de toda a situação social que molda o caráter descaracterizado da criança vítima. O retrato da crise de 29 foi claro, bem colocado de dentro da população pobre para fora, mas, a figura da crise pessoal me gritou mais intensamente. Se ao menos ele tivesse virado um John Dillinger como ansiado por certos momentos ou um jogador, como se tornara bom outrora. Mas a desvontade ainda o vencia. E, daí, veio o quase lutador, estudante, quiçá escritor, nada. Todo aquele descaso, todo esse desgosto com os gostos da vida, a negação de qualquer perspectiva, do ser autômato ou puramente instintivo. Isso me fez ver que direito eu tenho de não reivindicar à minha própria pessoa o direito de ser, de gostar, de aprender e de querer viver. Que direito eu tenho?