19 de abril de 2010

Sobre Inerência. Ou maldade?

Sobre Inerência. Ou maldade?

Inerente, adj. Do latim inhaerens.
Que é atribuído ou propriedade de algo ou alguém; Que faz parte de alguma coisa; Intimamente unido.


Que nós temos todo um caráter moldado com o tempo é tácito. Resultados de um meio e das escolhas dentro deste. Mas acredito ainda que em tudo existe uma certa inerência em ser. E nesse ponto não só como uma interpretação do que é bem ou mal, mas sim do que é instintivo e natural.

Freqüentemente me pergunto sobre o que é instintivo para um ser humano, o que é inerente a nossa raça. Seria a bondade ou a maldade, aquela que aflora da nossa consciência primeiro?

Certa vez na faculdade eu tive um breve contato com uma matéria que muitas vezes foi motivo de estranhamento ou piadinhas na sala. A antropologia gritava seus conceitos para mim naquelas aulas enquanto eu, meninodeapartamento, tentava entender por que um cara entrou num ônibus 174 e virou filme/manchete nacional pela sua história. A professora, outrora aluna de Laraia, empurrou um Cultura: Um conceito antropológico. Empurrou, até por que naquela época eu não leria um livro de sociais assim por livre vontade.

Não fui muito a fundo em toda aquela também teoria de Durkheim e de outros nomes nas aulas. No entanto, com elas, as perguntas do dia a dia ganhavam um sentido novo.

A bondade ou a maldade? Descarto os casos assumidos, patológicos ou maiores dentro da escala social. Aqueles que levam uma pessoa e depois um grupo ao terrorismo, preconceitos, assaltar ou matar por tão pouco. Mas vejo ainda que os detalhes que aqui falo são a base para esses maiores. Detalhes esses, pequenas situações que dão continuidade ao nosso dia a dia.

Não, não se faça de bom moço, caracterizo como maldade as pequenas coisas, qualquer pequeno ato ou escolha de competição, que visa um alcance ou relação pessoal, social ou profissional. É complicado definir algo do tipo, assim fora de qualquer convenção. Cada cultura tem seu bem e mal, seu céu e inferno. Mas nos detalhes, aqueles humanos, somos iguais.

Fato social, relativismo cultural, todas essas teorias ensinam como analisar antropologicamente ou sociologicamente um indivíduo. A forma de olhar cada um imerso na sociedade que te envolve e influencia. Mas aqui eu quero algo mais intrínseco, mais íntimo. Onde não importa quão financeiramente diferente é a pessoa. Pergunto aqui sobre algo que é inerente a qualquer um. Anos estudados, línguas faladas ou países que visitou, no íntimo, é só um eufemismo que embeleza o que todos de fato são.

Por hora, acredito fielmente que somos maus. Naturalmente maus. Todas as intriguinhas, bullying, os comentários injustificados, os olhares dados - aqueles que nem no âmago da consciência justificamos o valor negativo. Titulações comuns: inveja, raiva e todos os outros tão falados pecados capitais. Ações e sentimentos que na igreja fazem toda crença virar uma esperança e não mais uma certeza.

E nas situações mais difíceis o instinto aparece e não existem palavras de bondade que sobrepõem a necessidade de uma fome ou o risco da morte. Ensaio sobre a cegueira do Saramago é um ensaio sociológico (devida licença aos sociais) curiosíssimo sobre isso.



Tive que dividir em dois pelo tamanho, queria falar tanta coisa sobre isso, mas não rola.

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