Sobre Inerência. Ou maldade?

Inerente, adj. Do latim inhaerens.
Que é atribuído ou propriedade de algo ou alguém; Que faz parte de alguma coisa; Intimamente unido.
Que nós temos todo um caráter moldado com o tempo é tácito. Resultados de um meio e das escolhas dentro deste. Mas acredito ainda que em tudo existe uma certa inerência em ser. E nesse ponto não só como uma interpretação do que é bem ou mal, mas sim do que é instintivo e natural.
Freqüentemente me pergunto sobre o que é instintivo para um ser humano, o que é inerente a nossa raça. Seria a bondade ou a maldade, aquela que aflora da nossa consciência primeiro?
Certa vez na faculdade eu tive um breve contato com uma matéria que muitas vezes foi motivo de estranhamento ou piadinhas na sala. A antropologia gritava seus conceitos para mim naquelas aulas enquanto eu, meninodeapartamento, tentava entender por que um cara entrou num ônibus 174 e virou filme/manchete nacional pela sua história. A professora, outrora aluna de Laraia, empurrou um Cultura: Um conceito antropológico. Empurrou, até por que naquela época eu não leria um livro de sociais assim por livre vontade.
Não fui muito a fundo em toda aquela também teoria de Durkheim e de outros nomes nas aulas. No entanto, com elas, as perguntas do dia a dia ganhavam um sentido novo.
A bondade ou a maldade? Descarto os casos assumidos, patológicos ou maiores dentro da escala social. Aqueles que levam uma pessoa e depois um grupo ao terrorismo, preconceitos, assaltar ou matar por tão pouco. Mas vejo ainda que os detalhes que aqui falo são a base para esses maiores. Detalhes esses, pequenas situações que dão continuidade ao nosso dia a dia.
Não, não se faça de bom moço, caracterizo como maldade as pequenas coisas, qualquer pequeno ato ou escolha de competição, que visa um alcance ou relação pessoal, social ou profissional. É complicado definir algo do tipo, assim fora de qualquer convenção. Cada cultura tem seu bem e mal, seu céu e inferno. Mas nos detalhes, aqueles humanos, somos iguais.
Fato social, relativismo cultural, todas essas teorias ensinam como analisar antropologicamente ou sociologicamente um indivíduo. A forma de olhar cada um imerso na sociedade que te envolve e influencia. Mas aqui eu quero algo mais intrínseco, mais íntimo. Onde não importa quão financeiramente diferente é a pessoa. Pergunto aqui sobre algo que é inerente a qualquer um. Anos estudados, línguas faladas ou países que visitou, no íntimo, é só um eufemismo que embeleza o que todos de fato são.
Por hora, acredito fielmente que somos maus. Naturalmente maus. Todas as intriguinhas, bullying, os comentários injustificados, os olhares dados - aqueles que nem no âmago da consciência justificamos o valor negativo. Titulações comuns: inveja, raiva e todos os outros tão falados pecados capitais. Ações e sentimentos que na igreja fazem toda crença virar uma esperança e não mais uma certeza.
E nas situações mais difíceis o instinto aparece e não existem palavras de bondade que sobrepõem a necessidade de uma fome ou o risco da morte. Ensaio sobre a cegueira do Saramago é um ensaio sociológico (devida licença aos sociais) curiosíssimo sobre isso.
Tive que dividir em dois pelo tamanho, queria falar tanta coisa sobre isso, mas não rola.
não sabia que vc tinha tanto a dizer, apaixonante!
ResponderExcluir