21 de março de 2011

Permitir


E aquele desejo de destruição era tão grande quanto. Era o mesmo que tinha de viver. Olhou o maço, tocou, pegou, colocou de volta. A cabeça, de tão pesada, agora lhe era leve. Fechou os olhos, cotovelos nos joelhos, mãos no rosto. Inspirou profundamente aquele cansaço enfadonho... Expirou.

Soltou também o que lhe restava. Lhe foi o ar, te foi o medo. Pegou um cigarro, acendeu, tragou, fumou. Cheiro horrível. Fato. Ele o odiava, mas como foi bom. Então, findo rapidamente, pegou o segundo e a sensação só aumentava, só o aumentava. Queria mais, queria pior, o melhor. Pensou em outras drogas, pesadas, mais caras, dinheiro ele tinha mas a compreensão já lhe bastava.

Olhou com desprezo para o quarto ou quinto cigarro que jazia incandescente em mãos e jogou o de lado, aquele brinquedo velho já não o tinha mais graça. A experiência estava feita. Aos poucos leu a mensagem, a forma miserável no qual guiava a própria vida. O medo cotidianamente fora o protagonista.

Ele, coadjuvante, sempre soube: nunca gostou de cigarros, nem da fumaça, tão pouco das pessoas que por seus motivos inalavam toda aquela nuvem pulmão adentro. Seu medo, longe de ser daqueles recheados tubinhos brancos, não o permitia que ele ferisse um mínimo que fosse sua preciosa e frágil vida. A guardava com amor e zelo para no fim, como se devolvesse uma locação, entrega-la aos vermes - intocada, não vivida e ingrata.

Aquela observada destruição. Amar é se permitir ferir. É ter o maior resguardo e no mesmo instante não o ter. É se abrir, se deixar, confiar no outro um sentimento que não se troca. Ele não é a roupa que veste, o curso que faz ou o carro que dirige. (fight club!) O que guardará desta passagem são os sentimentos que viveu. E se não se permitir sentir não permitirá viver. Que não fume por princípios (ou gosto) - não por medo de morrer. Jamais por medo.