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18 de janeiro de 2012

Seu Genário

Seu Gerário, 62 anos de muita vida. Cabelo grisalho e pele marcada ao sol. Começou como quem nada queria, como quem um dia já teve algo a perder, um dia. Viúvo de família, viúvo da vida. Essa lhe mostrou cedo o que é o amor mas também os pesares que esse o trás. E, como dito há pouco, começou. Palavra forte essa. Começar. A descobriu com o passar dos invernos, com o passar do passar. Mas essa cá é lá outra história. Começou. Despojado de sua base machista daqueles seus anos 50 de que homem que é homem não dança, se pôs a dançar.

Depois dos esportes ditos não adequados a idade, de onde tirava toda endorfina necessária ao sustento da vida de pesares, os pequenos passos ritmados se fizeram em sentido. Pouco a pouco. Breve, já não se fazia sem as noites tradicionalmente seguidas a dança. Sentia os passos bem colocados e aquele suor de algo belo. Era o esforço que na música se esvaía. Aquele giro que no chão se equilibrava. Um peão na sua rota circular no sustento de uma personalidade. Personalidade. E, com seus 62 anos, viu que sem ela não se dança. Ou se dança mas não toca. É muito mais que dois corpos se alimentando em movimentos frenéticos ou giros encaixadinhos. São duas vidas se equilibrando em medos, convicção e vontade. Duas almas inseguras que se acham, feitas em sensualidade.

Ah, o forró. Deu a seu Genário olhos no corpo que não os tinha. Aprendeu a ver na transparência daquelas peles tímidas. Mudou sua aposentadoria e tornou o dois pra lá mais próximos dois pra cá. –Você menino, já não é mais o mesmo depois de umas tantas sanfonas sentidas e uma zabumba no peito - como gosta sempre de lembrar. Ele, pelo menos, nunca mais o foi.

Arrepia o corpo da gente
Faz o véio ficar moço
E o coração de repente
Bota o sangue em arvoroço.

13 de junho de 2010

Pedrinho


Menino gordinho. Brincou, sonhou, chorou, dormiu e brincou de novo. Em toda a sua até então breve vida, desde que começou a andar e sentir suas vontades, gostou de pássaros. De todo tipo lhe convinha, até por que de tipos ele nada entendia. Seu sonho sempre fora pegar em um.

Admirava os homens mais velhos, aquelas barbas brancas e sabedoria latente. Um dia se viu encantado por um senhor de pássaro vistoso e altivo no ombro. Ele, o senhor, pouco caso fazia do pássaro. Quanto menos atenção dava mais o pássaro se sentia à vontade e rodopiava no cômodo de seu ombro.

Desde então, Pedrinho passou a ir ao quintal e lá esperar. Olhava os pássaros com o canto dos olhos com se nada quisesse. Quando um ali pousava ele dava de ombros e voltava as costas aflito na espera de alguma aproximação da criaturinha. Nunca deu certo. Nunca chegavam perto o suficiente.

Tentou de tudo. Armadilhas ele não conseguia fazer, era muito novo, e isso só aumentava a admiração pelos mais velhos. Correr de nada adiantava, os pássaros eram sempre mais rápidos. Tentava em vão disparar atrás de um ou outro esperançoso, mas força também lhe faltava.

Uma vez no quintal, brincando com aquelas bolas grandes, leves e coloridas de parque, viu vários pássaros desses pequenos pousarem juntos ao gramado próximo. Ele estacou com a bola nas mãos. Segundos depois fez a primeira coisa que veio na cabeça: arremeçou.

Todos eles partiram em disparada assustados. A bola bateu de forma estranha naquele nuvem de asinhas e caiu ao chão. Junto dela um passarinho. Ele não acreditou. Seu sonho, em fim pegaria em um. Já se sentia mais confiante, mais velho, mais experiente e vivido. Tudo isso em frações de segundos. Não tinha tempo a perder.

O pássaro já pulava de um lado pro outro prestes a voar. Então, correu o mais rápido que pôde nos limites da sua felicidade. A criaturinha continuava pulando e pulando. Bem viva, apenas um pouco desnorteada para seguir seu caminho. Ele, eufórico, seguia desgovernado em direção.

Quando perto o suficiente, ao se jogar no chão com as mãos postas, percebeu que o pássaro não voaria naquele momento, apesar das tentativas. Ele de fato o pegaria. E isso o assustou completamente. Saber disso criou toda a perplexidade. Não contava com a reação. Sonhava e apenas sonhava. Como seria? Chegou a centímetros. Olhou, desviou os olhos e olhou de novo. Limpou o suor do rosto. Expressão preocupada e confusa... Decidiu.

Com calma, apoiou as mãos na grama, levantou-se lentamente e foi em direção a casa brincar de outra coisa. Pássaros já não lhe interessavam mais.