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3 de dezembro de 2011

Queria escrever algo leve e mágico só pra provar que, nessas palavras, imerso na catarse diária de uma leitura rápida e despretensiosa, a vida tem algum sentido. E, com isso, conseguir seguir sem que o vazio sussurre de vez em quando, assim, como quem não quer nada.

14 de março de 2011

Pueril

As coisas que eu escrevo aqui tem cada vez menos sentido. Assim, proporcionalmente com o tempo que aqui fico sem vir. Mostra a distância que me tenho comigo mesmo. Da minha integridade e consciência que, afetadas, já não constroem nada. Volto aos tempos letárgicos que sobre mim só - e mal - sabia os assuntos e sentimentos mundanos de uma criança em crise. E assim como quem fofoca de um vizinho, cochicho de minha pessoa para aquela que deveria ser eu. Falo puerilidades com objetivos que já não sei quais são. Com isso, a passos lentos, quase inaudíveis, caminho para trás com uma determinação voraz de alguém que já não tem em que acreditar.


- Ziul, como quem termina um papo enfadonho, deu-se no ponto final. Fechou seu pequeno bloco de notas, acendeu um cigarro coxo e seguiu pelo parque que a tantos invernos fazia seu lugar.

30 de setembro de 2010


O infinito deve se estender nas minhas percepções de limite por todos os ângulos temporais existentes. Não como algo longínquo que sem foco eu não posso ver. Mas como um sem espaço de possibilidades onde possa ser feito o que eu bem quiser e quiçá entender.

Ziul tinha o relógio em uma das mãos e as escolhas na outra.

Tendeu o tempo ao infinito e das escolhas, cortou todas. Fez da vida o ato. Escolher por querer, fazer acontecer na vontade. Precisou daquela semana pra entender que nossos limites são muito maiores do que pensamos.

No mais, só mais uma noite daquelas em que foi dormir revolucionário, sonhou antes mesmo de deitar. E acordou mais um.

-Ah se a catarse de uma noite durasse uma vida.
Foi o que lhe veio logo quando acordou e levantou indiferente a um novo dia.




-Então advinhei, Sônia - continuou com entusiasmo -,
que o poder apenas se entrega a quem se atreve a se inclinar e apanha-lo.
Raskólnikov

31 de março de 2009

Correr (2)

(...)

Então, uma vez vi aquela meninamulher. Devia ter seus 19 anos. Andava melancolicamente cabisbaixa e levava na colera um Yorkshire Terrier – lembrava muito o meu. - Vinha de frente pra mim, no sentido contrário do calçadão reto de corrida. Tive tempo suficiente de olhar pra ela sem que ela percebesse. Imaginei milhares de motivos para ela estar ali, assim.

No meio de tanta gente estranha. Ela, estranha e linda. Alguma coisa incomodava. Algo que não tinha como eu saber o quê, algo que me intrigava e tornava-a mais linda. Sabe aquela pessoa que dá vontade de parar, sentar e bater um papo sobre a vida? Assim mesmo, inexplicável, uma intimidade que não existia. Nisso, em contraste com a alegria do cachorro, ela seguia sua introspecção.

Quantas vezes eu andava por aí assim! Corria nos meus problemas curtos enquanto o mundo voava na sua realidade. Eu era o ser e o nada. Uma busca constante pela essência que me abandonava. Mas e aí? Eu só queria mais uma vez correr. Como aquela coisa feita mal pensada. Aquele desejo latente impedido pela consciência. Não existia sentido, era só vontade. Sentimento, só correr.

Ela passou por mim, cruzou no sentido oposto e nada mais. O sol laranja-avermelhado daquele horário, vindo quase que horizontalmente me lembrou de respirar. Voltei, mais uma vez de um mundo que não era meu.



25 de fevereiro de 2009

Correr (1)


Ziul Sartre.

Fone de ouvido. Tênis. Chaves. Um pouco de água antes de sair.

Play. Abro a porta, sol, rua, silêncio. Essa é sempre a melhor parte. Não ouvir os carros, os problemas, as pessoas. Silêncio que minha música dita só pra mim. Andar, respirar, seguir um caminho - que a princípio não me leva a lugar algum. Cabelo, roupa, não importa. Só quero correr, tocar naquele horizonte que eu mal posso ver. Ter a sensação de chegar a algum lugar. Desesperadamente correr.

O começo é revelador. Aquela íntima onda de raiva se transforma em força. E o corpo pede mais. Respiração forte, sorriso irônico. Vai, um pouco mais. E o vento forte contra o rosto? Como se quisesse me parar de fazer aquilo. Aos poucos a calma chega, participa do meu corpo junto ao cansaço. A dose diária de serotonina que eu preciso. O meu medicamento à base de fluoxetina. Já ouvi dizer que chocolate e sexo participam no nosso corpo com a mesma propriedade. Bom, talvez. Não vou entrar nesse assunto agora.

Pessoas passam como um vulto entretido no seu caminhar forçado. Obrigados pelo médico? Contrariados pela balança? Estresse? São muitos os motivos estampados nos rostos estranhos do caminho.

Então, uma vez vi aquela meninamulher. Devia ter seus 19 anos. Andava melancolicamente, cabisbaixa e levava na colera um Yorkshire Terrier - que lembrava muito o meu. - Vinha de frente pra mim, no sentido contrário do calçadão reto de caminhada.

Tive tempo suficiente de olhar para ela sem que ela percebesse. Imaginei milhares de motivos para ela estar ali, assim.