Os personagens e as situações desta obra são reais apenas no universo da ficção; não se referem a pessoas e fatos concretos, e sobre eles não emitem opinião. Ciadasletras
21 de setembro de 2014
cheio de significados
Tem dias que o ar tá outra textura. Até a tonalidade muda. As cores se vestem de filtro e aquele pássaro canta como em trilha ao curta desse um dia só. Aquele carro dobra a esquina cheio de significados e desaparece. Desaparecem as pessoas e ficamos num silêncio do vazio. Ou num vazio silencioso, a diferença eu já nem sei. É que me aparece esse pássaro de novo e rouba a cena cheio de entrelinhas.
2 de fevereiro de 2014
Minha cidade
Eu fico preocupado com meu estado de espírito aqui. Não encaixo. Não encontro. Com as pessoas, com os lugares, com o ar que eu respiro. Imagine-se no prender da respiração por um mergulho de piscina e a sensação de alivio posterior daquela boa quantidade de ar que vem como um copo de agua gelada no calor seco. Imagine-se nisso por um semestre. Respiração presa. Preso. Quando alguém me pergunta se saio de Brasília futuramente, suspiro como se o destino me apertasse o peito. Minha vida só acontece fora daqui. O aqui é um torpor sem fim. Não me encaixo, não me vejo. Aqui a solidão abraça silenciosamente, confortando o tempo passar. E ele passa. Passa assustadoramente enquanto eu acredito que tudo no mundo se encaixa, como num brinquedo de lógica. Sem lógica.
5 de outubro de 2013
Na minha introspecção diária de biblioteca existe uma garota. Não me atrai fisicamente e tampouco um dia cheguei a trocar poucas palavras com ela. Sentamos sempre ali, na mesma zona de mesas perto das janelas. E ela lê. Ela lê muito. Literatura brasileira, russa, inglesa. Um livro alternadamente a outro enquanto eu me perco e me encontro nos cálculos. Enquanto concurseiros folheiam seus vade mecum, enquanto uma pessoa dorme na mesa da esquerda. Cada vez que olho curioso pra ela me vem a capa do meu Murakami que dorme fechado no escuro da minha bolsa. Ela lê. Ela sublinha. Marca e escreve. Repetidas vezes. Me lembra a vontade de largar aquelas integrais, abrir meu livro e passar a tarde assim, absorto na completude introspectiva que só um livro consegue me inserir. Não sei se invejo ela. Claramente faz isso por algum curso ou trabalho, mestrado talvez, algumas incontáveis resenhas de um curso de letras. Ela sempre parece fazer de bom grado e escolha. Daquelas pessoas que quando leem fazem com que outras ao redor tenham a mesma vontade de passar umas interessantes páginas imerso naquela boa postura. Gosto. E talvez gosto por ter minha liberdade. Leio quando quero e quando posso, termino em dois dias ou dois meses, como queira. Sempre tenho a sensação que gostaria de ler muito mais do que tenho lido. Mas, se os paradigmas de um curso tornasse isso compulsório não acredito que teria a mesma vontade. E amanhã novamente ela estará ali, com seu Dostoiévski e seu Machado de Assis enquanto eu calculo os esforços resultantes numa estrutura estática. Enquanto eu calculo o tempo que terei pra mergulhar, da mesma forma, numas poucas páginas antes de dormir.
29 de setembro de 2013
25 de setembro de 2013
22 de abril de 2012
Não queria externar isso assim, não pra mim. Porque torna tudo uma possibilidade do real e dele já provei bastante do gosto que não veio. É o não de não querer assumir os momentos em que meus olhos se perdem. Daqueles em que de tudo se esquece. Desses que envolto em curiosidade ímpar te olho e só vejo a síncope do mundo.
8 de abril de 2012
Simples
Um desejo irrevogável pela rotina e resignadamente pelo simples. É uma vontade de ter amor. Ser amor. E só. E simples. De largar, de correr, de buscar, de deixar. Mudar essa diferença que me faz desigual. Ou tão igual. Me resignar pelo modesto, pelo comum e ser feliz. Uma vontade de acordar simples, trabalhar simples, com aqueles mesmo simples horários cotidianamente reclamados e acusados insossos. Mas deles, duma pura organização modesta diária, faria cada válvula de espape necessária ao que me faltasse. Ler simples, crescer simples, ser simples. E a única pretensão que afogaria o meu dia seria o aguardo daquele abraço no fim, perdido num presente simples sem a mágoa do passado nem ansiedade do futuro. Essa mania de querer ser grande é o que nos torna a todos pequenos. É o que não te deixa ser. Simples.
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