24 de março de 2011

Escrito

É de emoção, é de sentimento, é de raiva, é de amor incompreendido. É uma vontade que vem e se esvanece logo depois. É um desejo de gritar que, desejado, sai mudo se dele não faço minhas palavras.

21 de março de 2011

Permitir


E aquele desejo de destruição era tão grande quanto. Era o mesmo que tinha de viver. Olhou o maço, tocou, pegou, colocou de volta. A cabeça, de tão pesada, agora lhe era leve. Fechou os olhos, cotovelos nos joelhos, mãos no rosto. Inspirou profundamente aquele cansaço enfadonho... Expirou.

Soltou também o que lhe restava. Lhe foi o ar, te foi o medo. Pegou um cigarro, acendeu, tragou, fumou. Cheiro horrível. Fato. Ele o odiava, mas como foi bom. Então, findo rapidamente, pegou o segundo e a sensação só aumentava, só o aumentava. Queria mais, queria pior, o melhor. Pensou em outras drogas, pesadas, mais caras, dinheiro ele tinha mas a compreensão já lhe bastava.

Olhou com desprezo para o quarto ou quinto cigarro que jazia incandescente em mãos e jogou o de lado, aquele brinquedo velho já não o tinha mais graça. A experiência estava feita. Aos poucos leu a mensagem, a forma miserável no qual guiava a própria vida. O medo cotidianamente fora o protagonista.

Ele, coadjuvante, sempre soube: nunca gostou de cigarros, nem da fumaça, tão pouco das pessoas que por seus motivos inalavam toda aquela nuvem pulmão adentro. Seu medo, longe de ser daqueles recheados tubinhos brancos, não o permitia que ele ferisse um mínimo que fosse sua preciosa e frágil vida. A guardava com amor e zelo para no fim, como se devolvesse uma locação, entrega-la aos vermes - intocada, não vivida e ingrata.

Aquela observada destruição. Amar é se permitir ferir. É ter o maior resguardo e no mesmo instante não o ter. É se abrir, se deixar, confiar no outro um sentimento que não se troca. Ele não é a roupa que veste, o curso que faz ou o carro que dirige. (fight club!) O que guardará desta passagem são os sentimentos que viveu. E se não se permitir sentir não permitirá viver. Que não fume por princípios (ou gosto) - não por medo de morrer. Jamais por medo.

14 de março de 2011

Pueril

As coisas que eu escrevo aqui tem cada vez menos sentido. Assim, proporcionalmente com o tempo que aqui fico sem vir. Mostra a distância que me tenho comigo mesmo. Da minha integridade e consciência que, afetadas, já não constroem nada. Volto aos tempos letárgicos que sobre mim só - e mal - sabia os assuntos e sentimentos mundanos de uma criança em crise. E assim como quem fofoca de um vizinho, cochicho de minha pessoa para aquela que deveria ser eu. Falo puerilidades com objetivos que já não sei quais são. Com isso, a passos lentos, quase inaudíveis, caminho para trás com uma determinação voraz de alguém que já não tem em que acreditar.


- Ziul, como quem termina um papo enfadonho, deu-se no ponto final. Fechou seu pequeno bloco de notas, acendeu um cigarro coxo e seguiu pelo parque que a tantos invernos fazia seu lugar.

20 de dezembro de 2010

O amor é importante, porra.


O amor é importante, porra.

Brasília - Águas Claras.
01h10


li.
pichado no branco. simples assim. único.
um grito desesperado para algo que constantemente

esquecemos.
esqueço.
esqueci.

27 de novembro de 2010

Tattoo

Olá,

queria fazer uma tatuagem. Agora. Uma tattoo na alma. Que marcasse e definisse como algo que nunca saberei se sou. Ultrapassasse a barreira da catarse diária e completasse a compleição do vazio que me toma.

quanto fica?

30 de setembro de 2010


O infinito deve se estender nas minhas percepções de limite por todos os ângulos temporais existentes. Não como algo longínquo que sem foco eu não posso ver. Mas como um sem espaço de possibilidades onde possa ser feito o que eu bem quiser e quiçá entender.

Ziul tinha o relógio em uma das mãos e as escolhas na outra.

Tendeu o tempo ao infinito e das escolhas, cortou todas. Fez da vida o ato. Escolher por querer, fazer acontecer na vontade. Precisou daquela semana pra entender que nossos limites são muito maiores do que pensamos.

No mais, só mais uma noite daquelas em que foi dormir revolucionário, sonhou antes mesmo de deitar. E acordou mais um.

-Ah se a catarse de uma noite durasse uma vida.
Foi o que lhe veio logo quando acordou e levantou indiferente a um novo dia.




-Então advinhei, Sônia - continuou com entusiasmo -,
que o poder apenas se entrega a quem se atreve a se inclinar e apanha-lo.
Raskólnikov

13 de junho de 2010

Pedrinho


Menino gordinho. Brincou, sonhou, chorou, dormiu e brincou de novo. Em toda a sua até então breve vida, desde que começou a andar e sentir suas vontades, gostou de pássaros. De todo tipo lhe convinha, até por que de tipos ele nada entendia. Seu sonho sempre fora pegar em um.

Admirava os homens mais velhos, aquelas barbas brancas e sabedoria latente. Um dia se viu encantado por um senhor de pássaro vistoso e altivo no ombro. Ele, o senhor, pouco caso fazia do pássaro. Quanto menos atenção dava mais o pássaro se sentia à vontade e rodopiava no cômodo de seu ombro.

Desde então, Pedrinho passou a ir ao quintal e lá esperar. Olhava os pássaros com o canto dos olhos com se nada quisesse. Quando um ali pousava ele dava de ombros e voltava as costas aflito na espera de alguma aproximação da criaturinha. Nunca deu certo. Nunca chegavam perto o suficiente.

Tentou de tudo. Armadilhas ele não conseguia fazer, era muito novo, e isso só aumentava a admiração pelos mais velhos. Correr de nada adiantava, os pássaros eram sempre mais rápidos. Tentava em vão disparar atrás de um ou outro esperançoso, mas força também lhe faltava.

Uma vez no quintal, brincando com aquelas bolas grandes, leves e coloridas de parque, viu vários pássaros desses pequenos pousarem juntos ao gramado próximo. Ele estacou com a bola nas mãos. Segundos depois fez a primeira coisa que veio na cabeça: arremeçou.

Todos eles partiram em disparada assustados. A bola bateu de forma estranha naquele nuvem de asinhas e caiu ao chão. Junto dela um passarinho. Ele não acreditou. Seu sonho, em fim pegaria em um. Já se sentia mais confiante, mais velho, mais experiente e vivido. Tudo isso em frações de segundos. Não tinha tempo a perder.

O pássaro já pulava de um lado pro outro prestes a voar. Então, correu o mais rápido que pôde nos limites da sua felicidade. A criaturinha continuava pulando e pulando. Bem viva, apenas um pouco desnorteada para seguir seu caminho. Ele, eufórico, seguia desgovernado em direção.

Quando perto o suficiente, ao se jogar no chão com as mãos postas, percebeu que o pássaro não voaria naquele momento, apesar das tentativas. Ele de fato o pegaria. E isso o assustou completamente. Saber disso criou toda a perplexidade. Não contava com a reação. Sonhava e apenas sonhava. Como seria? Chegou a centímetros. Olhou, desviou os olhos e olhou de novo. Limpou o suor do rosto. Expressão preocupada e confusa... Decidiu.

Com calma, apoiou as mãos na grama, levantou-se lentamente e foi em direção a casa brincar de outra coisa. Pássaros já não lhe interessavam mais.